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São João: Poesia de Paulo Setúbal

Festa na roça, s/d Papas Stéfanos ( Rhodes, Grécia, 1948, radicado no Brasil) Óleo sobre tela, 60 x 80 cm

 

São João

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Paulo Setúbal

                                                           A Luiz Piza Sobº

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É noite…  O santo famoso,

O doce, o meigo S. João,

Tivera um dia glorioso,

Dia de festa e de gozo,

Que encheu de estrondo o sertão.

Já cedo, em meio aos clamores,

Aos vivas do poviléu,

Lindo, enramado de flores,

Um mastro de quentes cores,

Subira em triunfo ao céu!

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E agora, enquanto, alva e lesta,

Palpita a lua hibernal,

Na fazenda, toda festa,

Referve a alegria honesta

Da noite tradicional.

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Dentro, com grande aparato,

Brilha enfeitado o salão:

Que há, nessa festa do mato,

Pessoas de fino trato,

Chegadas para o S. João…

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Destaca-se entre essa gente

A flor do mundo local:

O padre, o juiz, o intendente,

– O próprio doutor Vicente

Que é deputado estadual!

Ante o auditório pasmado,

Que, num enlevo, sorri,

A Isabelinha Machado

Batuca, sobre o teclado,

Uns trechos do Guarani…

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Tudo o que toca e assassina,

Recebe imensa ovação;

Todos, quando ela termina,

Põem-se a exclamar: ” Que menina!

Dá gosto!  Que vocação!”

 

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E ela, entre ingênua e brejeira,

Com ares de se vingar:

” Agora, queira ou não queira,

Seu Saturnino Pereira

Há de também recitar.”

 

Surge, à força o Saturnino…

Rugem palmas ao redor!

É um tipo, esgalgado e fino,

Que sabe desdde menino,

Dizer Castro Alves de cor.

Na sala, muda e tranquila,

Tombam, com chama, os versos seus;

E ele, o letrado da vila,

Ao som da velha Dalila,

Lá vai: ” Foi desgraça, meu Deus...”

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Após ouvir a  estupenda

Flamância do seu falar,

No amplo salão da fazenda,

Os velhos jogos de prenda

Reclamam o seu lugar.

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Começa então a berlinda.

Risos. Cochichos. Zum-zum.

– De pé, donairosa e linda.

Pergunta a D. Florinda

Os dotes de cada um:

Por que razão, seu Martinho,

Foi à berlinda a Lelê?

– ” Porque olha muito ao vizinho”;

“Porque é má; porque é um anjinho”;

“Porque é vaidosa”; “porque…”

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E todo o mundo, a porfia,

Põe farpas na indiscreção…

E enquanto, ingênua e sadia,

Essa campônea alegria

Faz tumultuar o salão.

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Lá fora, alegre e gabola,

Nun terreiro de café,

Ao rude som da viola,

A caboclada rebola

Num tremendo bate-pé!

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A filha do Zé-Moreira

É o mimo deste São João;

À luz da rubra fogueira,

Requebra a guapa trigueira

Ao lado de Chico Peão.

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Candoca, a noiva do Jango,

Baila num passo taful;

É a flor que, nesse fandango,

Tem lábios cor de morango,

Vestido de chita azul.

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No sapateio se nota,

Aos risos dos que lá estão,

Nhô Lau, de esporas e bota.

Dançando junto à nhá Cota,

Viuva do Conceição….

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A voz do pinho que chora,

Por sob a paz do luar,

Fremindo vai, noite afora,

Essa alegria sonora

Da caboclada a bailar!

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E do salão, qua ainda brilha

Num faiscante esplendor,

Chegam os sons da quadrilha,

Que alguém ao piano dedilha

Com indomável furor.

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E no sarau campezino,

Nessa festa alegre e chã

Ruge a voz do Saturnino,

Que grita, esgalgado e fino:

Balancez!  Tour!  En avant...”

Sobre Hudson Almeida

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